Exercitando a visão para perceber o Cristo que fala conosco!

José Carlos Pezini

Maria, porém, ficou à entrada do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, curvou-se para olhar dentro do sepulcro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Eles lhe perguntaram: “Mulher, por que você está chorando? ” “Levaram embora o meu Senhor”, respondeu ela, “e não sei onde o puseram”. Nisso ela se voltou e viu Jesus ali, em pé, mas não o reconheceu. Disse ele: “Mulher, por que está chorando? Quem você está procurando? ” Pensando que fosse o jardineiro, ela disse: “Se o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou, e eu o levarei”. Jesus lhe disse: “Maria! ” Então, voltando-se para ele, Maria exclamou em aramaico: “Rabôni! ” (que significa Mestre). Jesus disse: “Não me segure, pois ainda não voltei para o Pai. Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês”. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: “Eu vi o Senhor! ” E contou o que ele lhe dissera”. João 20:11-18

Tudo indica que Maria Madalena, amiga e seguidora fiel, conviveu muito próximo de Jesus e dos doze. Foi ela quem tomou a iniciativa de ir ao túmulo no domingo bem cedo numa última homenagem ao seu Senhor. E por este motivo, também, foi ela quem primeiro testemunhou o Cristo Ressuscitado. Mas, curiosamente ela não reconheceu de imediato Jesus, embora ele estivesse ali bem perto dela.

O que fez com que esse Cristo, antes tão próximo, fosse confundido com um desconhecido? Como ela não O reconheceu, estando o Senhor ali bem perto dela? Será que era pelo fato de Jesus ter se manifestado em um corpo glorificado?   Maria estava diante de um mistério que destoava do que ela conhecia até então, o corpo material do Senhor. 

Mas há duas metáforas importantes que, se não respondem objetivamente à questão, trazem verdades espirituais que transcendem a experiência de Maria e tocam em nossa própria relação com o Senhor.  

A primeira é a de que, enquanto Maria estivesse procurando por um Jesus Morto, teria dificuldades de enxergar o Cristo Vivo, ainda que o tivesse diante dela. Isso indica que nós também não encontraremos o Senhor se o reduzirmos a leituras e imagens. Antes, devemos criar espaços para diálogos diários que torne Vivo Aquele que não é um personagem nem um conjunto de ideias, mas uma Pessoa.   

A segunda pista é a de que Maria ouve as primeiras palavras do Senhor sem reconhece-Lo, mas, quando Ele a chama pelo nome e diz: “Maria!”, a névoa se dissipa e ela enxerga o Cristo ressuscitado. Impossível não evocar o momento em que o Senhor reivindicava o título de bom pastor, aquele cuja voz as ovelhas ouvem e seguem: “Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10, 3-4).

O Senhor, como Pastor, nos encontra não apenas pelo entendimento, mas pelos sentidos. Exercitar a visão de um Jesus vivo e praticar a escuta de uma voz singular que nos chama pelo nome, eis os dois caminhos para encontrar nosso Senhor na madrugada de um dia surpreendente.

J.C. Pezini é diretor do Instituto Sara

A Deus Ansiedade

Cesar Junker

Há uma acentuada epidemia de ansiedade em nossos dias devido à pandemia do COVID-19. Pelo desejo de acumular bens de consumo e controlar o futuro para tentar, sem sucesso, aplacar o vazio da nossa alma, vivemos ansiosos e esbaforidos, perdendo a saúde, os relacionamentos e a paz. A ansiedade é um dos principais fatores de adoecimento hoje, desencadeando vários transtornos emocionais, psicológicos, físicos e espirituais.

Jesus não abordou a ansiedade como uma doença física, mas como uma maneira de encarar a vida, a qual revela falta de confiança em Deus. Ele aponta para as nossas pré-ocupações, ou seja, ocupar-se antes, que é um estado de incerteza e insegurança sobre o futuro e sobre as questões básicas da vida. Diante desse contexto de insegurança Jesus nos ensina duas atitudes fundamentais para não sermos escravizados pela ansiedade.

Primeiramente, Ele nos ensina a confiar em Deus. O Mestre contrasta os que vivem para as riquezas e, aqueles que vivem para Deus numa disposição de confiança e dependência. De fato, não há como ser apaixonado pelas riquezas e ser liberto das ansiedades. Ele nos convida em Mateus 6:26-27 a aprendermos ter confiança e dependência do Senhor com a simplicidade da natureza: “Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas? Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora à sua vida?  Para Jesus, a vida como presente de Deus, vale mais do que aquilo que se come e do que se veste. Nossa vida é mais valiosa do que as necessidades imediatas e mesmo assim, o Pai Celeste está atento a todas elas. O convite de Jesus não é para que abandonemos o nosso trabalho e vivamos de contemplação. Seu convite a nós é para um jeito de viver que prioriza a presença de Deus e nossa completa dependência em Sua Providência. É uma proposta de vida com valores eternos e com a consciência de que Deus não deixará faltar nada de essencial a uma vida digna e cheia de esperança.

Em segundo lugar, Ele nos ensina a viver um dia de cada vez. Isso significa saber dar importância ao que realmente vale a pena! Vivemos numa sociedade que, por querer controlar o futuro, tem produzido em nós um vício de antecipação das pré-ocupações da vida. Muitos abrem mão de viver o presente para viver um futuro que ainda não existe. Na realidade, não conseguem ocupar a mente e as energias no presente porque se ocupam com antecipações e deixam de desfrutar as experiências de cada dia. O respeitado pregador Charles Spurgeon disse certa vez: “Nossa ansiedade não esvazia o sofrimento do amanhã, mas apenas esvazia a força do hoje”. Quando Deus é o Senhor da nossa vida as angústias e antecipações com as pré-ocupações futuras se desfazem com a certeza de que o amanhã já está garantido e o presente é recheado da promessa de que o necessário para a vida nos será provido. É preciso ver a vida como um presente de Deus e como uma construção diária, bem expressado na bela canção de Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais…”. Jesus viveu intensamente e refletidamente cada dia e, assim, por ter vivido a essência da humanidade sendo gente de verdade, tinha autoridade para dizer: “Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal” (Mateus 6.34).

Vivamos confiando em Deus, nosso Pai amoroso e, aprendendo com Jesus a viver um dia de cada vez com gratidão, serenidade, sabedoria e esperança!

ORAÇÃO: Pai amoroso, sou grato(a) pela vida completa que há em Jesus e isso é presente Teu. Mesmo com as marcas que carrego da vida, tenho percebido o Teu constante cuidado. Aumenta a minha fé e ajuda-me a confiar totalmente em Ti e a viver cada dia com o coração repleto da Tua paz! Oro em nome de Jesus. Amém!

Cesar Junker é pastor da I.P.I. Lagoa Dourada em Londrina, PR.

Aprendendo a “lamentar”

Cesar Junker

“Esperança é o que fazemos enquanto esperamos”, disse o Pr. Caio Batista. Em dias em que as notícias não são boas, podemos aprender com o profeta Habacuque sobre como cultivar a esperança. O livro é uma conversa entre o profeta e seu Deus. Há o registro de dois diálogos, encerrando com uma canção de adoração revelando que todas as perguntas foram respondidas e a confiança de Habacuque em Deus foi renovada.

Assim começa seu livro: “Advertência revelada ao profeta Habacuque. Até quando, Senhor, clamarei por socorro, sem que tu ouças? Até quando gritarei a ti: “Violência!” sem que tragas salvação? Por que me fazes ver a injustiça, e contemplar a maldade? A destruição e a violência estão diante de mim; há luta e conflito por todo lado. Por isso a lei se enfraquece, e a justiça nunca prevalece. Os ímpios prejudicam os justos, e assim a justiça é pervertida” (Hc 1.1-4).

Habacuque nos ensina a lamentar, algo fundamental para uma espiritualidade viva e honesta. Não temos muitas informações pessoais sobre ele, exceto que formulava perguntas e obtinha respostas. Era uma pessoa que não estava conseguindo conciliar sua fé num Deus justo e bom com os fatos da vida como ele os via. Ele carregava muitos “por quês?”, à semelhança de perguntas que fazemos hoje, como: “Por que Deus, sendo justo, bom e todo-poderoso, não põe fim a tantos males no mundo?”.

O livro do profeta Habacuque é fascinante. A maioria dos profetas são diretos e até agressivos ao apresentar os oráculos divinos, ao pregar Sua Palavra e, chamar o povo ao arrependimento. Mas diferente no tom, Habacuque falao que queremos dizer para Deus!  Nos identificamos com ele quando verbaliza seu espantodiante da Soberania do Senhor (totalmente outro), mostrando sua impotência diante das circunstâncias e, revelando suas tentativas confusas de encontrar sentido nas coisas. Ele lamentou, deu voz à sua dor, tomou coragem para desabafar com Deus. Habacuque traz honestidade e robustez à nossa fé, pois, é impossível sermos íntimos de Deus se não formos honestos com Ele e, é justamente aqui que entendemos o lugar do lamento na vida do povo de Deus.

O sofrimento é realidade humana universal e parte integrante da vida – ser humano é sofrer.  Ninguém consegue isenção! Por isso, lamenta quem assume e abraça a sua finitude. Lamentar é um desabafar honesto Àquele que nos conhece por inteiro e pode todas as coisas. Deus é aberto e atento aos nossos desabafos. Sendo verdadeiros, não há nada que não possamos falar a Deus. O exercício espiritual da lamentação é um remédio contra a hipocrisia e o cinismo espiritual. Ela nos torna mais humildes, mais humanos e simpáticos às feridas das pessoas!

O lamento bíblico olha para a vida humana diante de um Deus santo, apontando para nossa finitude, nossa natureza pecaminosa, nossa necessidade de redenção e nossa confiança na comunhão com Deus através de Cristo. O cristão pode enxergar através da escuridão, crendo neste ensino do Apóstolo Pedro: “Lancem sobre Ele toda a sua ansiedade, porque Ele tem cuidado de vocês” (1 Pedro 5.7). Não há motivo pelo qual lamentar que Cristo já não tenha experimentado e passado em nosso lugar, e vencido. Jesus é a resposta para todas as perguntas e a solução para todas as nossas necessidades.

Assim, todas as vezes que lamentamos, podemos imaginar Deus apontando para a cruz e dizendo: “Está consumado”! “Eu fiz tudo o que tinha que ser feito”! A resposta para as perguntas do nosso lamento é Cristo! A solução para as nossas necessidades é Cristo! “O Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo” (Apocalipse 13.8). Porque antes de experimentarmos toda e qualquer dor, Deus já tinha o remédio e haverá um dia em que “A habitação de Deus estará com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já haverá passado”. (Apocalipse 21.3-4).

Estamos adentrando o segundo ano de uma pandemia que tem provocado sofrimentos individuais, familiares e sociais. Ela tem gerado medos, inseguranças, mortes, instabilidade política, econômica, social e trazido às pessoas conflitos internos e externos. Todas as perdas vivenciadas nesse tempo geram cansaço, angústia, pânico e inconformidade.

Apoiados, então, pelos salmos de lamentação aprendemos que súplicas e louvor andam juntos. É tempo de aprendermos a lamentar!

Emily Dickinson sugeriu que: “o sofrimento – se esvai – no louvor”. Por isso, agora é tempo de começarmos a exercitar a prática do lamento como um foco renovado para a esperança. Quando Habacuque olhava para as circunstâncias ficava perplexo (1.3), mas quando esperava em Deus e o ouvia, cantava (3.18-19).

Da crise, Habacuque fez tributo de louvor a Deus!

Cesar Junker é pastor da IPI Lagoa Dourada em Londrina/PR

Não fui preparado

Aos meus caros companheiros e guerreiros de caminhada:

Não tenho certeza se em algum momento de minha jornada com Jesus – e como um líder na igreja – aconteceu algo parecido mais como um evento que me levou para ‘fora da estrada’, do que no ano passado.

O grande sinal de desvio nas pistas “normais” me colocou em estradas vicinais que se transformaram em nada mais do que marcas de pneus e, eventualmente, em lacunas entre árvores e pântanos. Não me lembro de nenhum treinamento que eu tenha recebido para este novo desafio… e você?

No entanto, aqui estamos nós, chacoalhando em nossas minivans congregacionais (igrejas locais), tentando manter todos em seus lugares – e o café para não derramar. Estes são e têm sido tempos difíceis. Eles, mais do que nunca, nos pedem para sermos líderes diferentes.

Quanto mais reflito sobre isso, mais me convenço de que grande parte da interrupção é uma coisa boa. Fui forçado a desligar o piloto automático e realmente me envolver com a obra diária do Espírito Santo em minha vida, recebendo discernimento, graça e esperança duradoura.

Sou muito grato à você, por estar disposto a se envolver e fazer o melhor para pastorear o seu rebanho por este terreno acidentado e desconhecido. Sua coragem e tenacidade me inspiram. Sua confiança em Jesus como aquele que, em última análise, segura o volante toca profundamente à minha alma. Obrigado!

Minha oração por você é que o ‘mapa de viagem’ do Evangelho esteja firmemente à sua frente e você termine bem a corrida.

Deixe-me oferecer uma palavra final de encorajamento. Lembre-se:

  1. Você tem UM CHEFE que precisa agradar – Jesus.
  2. Você tem UM TRABALHO a fazer – cuidar bem de SEU rebanho.
  3. Você tem UMA ESPERANÇA para viver – a fidelidade soberana do Rei que está Vindo.

Na mais profunda admiração por você!

Pr. Roy Yanke
Traduzido por J. C. Pezini

As nossas liturgias definem quem iremos nos tornar

Rafael Franco

Deuteronômio 6.4–9 (NTLH): Escute, povo de Israel! O Senhor, e somente o Senhor, é o nosso Deus. 5 Portanto, amem o Senhor, nosso Deus, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças. 6 Guardem sempre no coração as leis que eu lhes estou dando hoje7 e não deixem de ensiná-las aos seus filhos. Repitam essas leis em casa e fora de casa, quando se deitarem e quando se levantarem.8 Amarrem essas leis nos braços e na testa, para não as esquecerem;9 e as escrevam nos batentes das portas das suas casas e nos seus portões.

Você tem alguma tradição que precisa sempre cumprir? Nós vivemos na era da informação e da imaturidade crônica. Temos muito acesso a todo tipo de notícias e de conhecimentos e ficamos presos a hábitos vazios, tradições adotadas sem perceber. Assim, nossos corações vão sendo moldados por liturgias diárias que em nada nos ajudam a amar mais a Deus. Os processos de mentoria e formação antigos foram se perdendo ao longo dos anos e foram sendo substituídos por telas e entretenimento, criando assim pessoas escravizadas pelas suas paixões.

O texto bíblico de Dt. 6.4-9 é o centro da tradição judaica, o Shema. Duas palavras chamam a atenção na leitura. Amor e coração. Os mandamentos de Deus são mandamentos para reconfigurar justamente as nossas paixões. Assim, a reconfiguração das nossas vidas começa com nossas liturgias diárias, ou seja: conforme vamos obedecendo os mandamentos de Deus em nosso dia a dia, mais nos tornamos capazes de obedecer os mandamentos de Deus! E quanto mais vivemos isso dia a dia, mais aprendemos a amar corretamente. Abrimos nossa vida para Deus moldar nosso coração.

No livro Você é o que Você Ama, James K. A. Smith diz que: se você é o que você ama e o amor é um hábito, logo o discipulado é uma reformulação dos hábitos de seus amores. Pergunto: se você analisar os seus hábitos, o que eles revelam sobre os seus amores?

Nossos amores são construídos desde nosso nascimento e nos são apresentadas várias versões de uma boa vida que nos prometem suprir nosso coração. Sem perceber embarcamos nas liturgias sociais e nos tornamos aquilo que amamos (aquilo que investimos nosso tempo). O problema é que quando refletimos, vemos que nossa vida está muito distante da vida proposta por Deus e não fazemos ideia de como voltar. Precisamos recalibrar nossos amores.

Para que possamos experimentar uma transformação profunda dos nossos amores temos que abrir espaço em nossas vidas para verdadeiramente amarmos a Deus. Organizar nossas liturgias diárias de devoção, prestar atenção aos nossos hábitos e investir tempo com as pessoas que Deus nos chamou para amar são cuidados simples que, no longo prazo, causam um impacto profundo em quem nos tornamos. Essa reconfiguração dos amores é obra do Espírito Santo em nós para que amemos cada dia mais Aquele para o qual nosso coração foi feito para amar, Jesus Cristo o Senhor.

Rafael Franco é pastor da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Campinas

Caminhos para o crescimento espiritual

Jonas Nascimento

Encontrei uma perspectiva interessante sobre como crescer em Cristo, no livro “Sendo quem Eu quero Ser”, de John Ortberg (publicado pela Editora Vida). Partindo do exemplo de Davi, que não conseguiu ir para a batalha contra Golias com as armas do Rei Saul, Ortberg afirma: “A Bíblia não diz que você é um utensílio de Deus, mas que você é uma obra-prima. Utensílios são produzidos em massa. Obras-primas são manufaturadas. Deus não fez você idêntico a mais ninguém”.

Esta é uma perspectiva bastante interessante para pensar sobre como crescemos como discípulos de Cristo. Cada um tem de se aproximar de Jesus como pessoa única criada por Deus. “Deus nunca produz duas pessoas iguais. Ele é um artesão, não um fabricante de produtos em massa”. Portanto, Deus tem um plano para cada um; Ele deseja realizar algo novo em sua vida. Deus tem um plano para o que Ele deseja para você. E, Ortberg acrescenta: “O crescimento espiritual é fabricado artesanalmente, não produzido em massa. Deus não trabalha com ‘tamanhos únicos’”.

Então, a pergunta é: Qual é o meu caminho? Como eu posso crescer em Cristo? 

Outro autor, Gary Thomas, diz que todos nós temos o que ele chama de “caminhos sagrados” – vias que encontramos naturalmente e que nos ajudam a experimentar a presença de Deus. Por exemplo, eu mesmo encontro com o Senhor mais pelo caminho da leitura de um bom livro. Mas, este meu caminho não é o de minha esposa Cinira. Ela vai pelo caminho do ativismo. Ela pode estar plenamente consciente da presença de Deus ao se envolver até o pescoço na preparação de ambientes como a nossa casa ou o templo e dependências. Outras pessoas se conectam melhor com Deus através da natureza, outros investindo em uma causa, outros servindo a quem precisa, outros quando estão na presença de amigos.

De acordo com Gary Thomas, os ‘caminhos sagrados’ são: Naturalista – encontra Deus na natureza; asceta – é atraído por disciplinas; tradicionalista – ama liturgias históricas; ativista – ganha vida espiritual defendendo uma grande causa; cuidador – encontra Deus ao servir; perceptivo – sente Deus através dos cinco sentidos; entusiasta – adora desenvolver-se por intermédio de pessoas; contemplativo – sente-se atraído à reflexão e à oração solitária; intelectual – ama a Deus pelo aprendizado.

Um bom exercício é conhecer cada caminho. Você encontrará um ou dois que chamam mais a sua atenção. E, ao descobrir com quais se identifica mais, você perceberá também que o seu desejo por eles será mais elevado.

Reafirmando, o seu caminho para o crescimento em Cristo será só seu. 

A crise como oportunidade de comunhão e crescimento

Jonas Nascimento

A comunhão cristã é expressa como fator essencial para que possamos ser igreja de Jesus Cristo. Paulo expressa isso de maneira magistral, quando ministra à igreja de Éfeso. “Pois há um só corpo e um só Espírito, assim como vocês foram chamados para uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de tudo, o qual está sobre todos, em todos, e vive por meio de todos” (Efésios 4.4-6).

A feliz comparação que o apóstolo faz com a figura do corpo nos ensina muito. Remete-nos a ideia fundamental da unidade. Assim orou o Senhor Jesus: “Minha oração é que todos eles sejam um, como nós somos um, como tu estás em mim, Pai, e eu estou em ti. Que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (João 17.21). Da minha perspectiva, a unidade é poderosa, pois ela nos ajuda a olhar e caminhar na mesma direção, testemunhando a nossa fé e esperança em Cristo.

Também a imagem do corpo nos lembra da interdependência, mostrada pela diversidade dos membros. O corpo é um só mas temos diversos membros, por isso, precisamos uns dos outros. Isto é mutualidade. Na comunhão, devemos nos reger pela reciprocidade apoiando uns aos outros, contribuindo para o crescimento saudável uns dos outros e de cada um dos membros do corpo.

A palavra também nos alimenta com a certeza de que a comunhão se dá com o fluir do Espírito em nós. “Há um só Espírito”. Com todas as letras, é o Espírito Santo que soprando sobre nós pode nos fazer verdadeiramente unidos amando e cuidando uns dos outros. Ele nos conduz a relacionamentos saudáveis. “O que diferencia as pessoas mais felizes das menos felizes é a presença de relacionamentos ricos, profundos, significativos, que dão prazer e transformam a vida” (John Ortberg, 2011, p. 259).

Portanto, nossa comunhão em Jesus deve nos levar a aprofundar nossos relacionamentos. E é interessante que, mesmo em meio a uma pandemia, com atividades presenciais suspensas, temos experimentado este desejo de apoiar uns aos outros. Nos momentos de cultos pelas mídias sociais, temos visto os irmãos e irmãs interagindo de maneira muito feliz e, principalmente, muito desejosos de saber um do outro e um manifesto desejo de reencontrar brevemente. 

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) Tedros Adhanom escreveu: “A Covid-19 está nos tirando muito, mas também está nos dando algo especial: a oportunidade de agir juntos, como uma só Humanidade, de trabalharmos juntos, aprendermos juntos, crescermos juntos.” A igreja de Jesus precisa ser exemplo nesta direção.

Deus nos diz pela boca do apóstolo Paulo que “há um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”. O nosso Deus trabalha por nós e leva-nos a “trabalharmos juntos, aprendermos juntos e crescermos juntos”.

Quando Menos é Mais: menos conversa, mais coerência!

João Paulo R. de Souza e Silva, pastor da 1ª IPI de Assis/SP

Com o prolongamento do isolamento social passamos a viver um momento no qual o excesso de discursos começou a se tornar cansativo e enfadonho. Todo dia tem uma live diferente para assistir: conversas de celebridades, show na casa de famosos e uma infinidade de cultos e pregações. Enfim, por conta dessa exposição excessiva a inúmeras vozes, as palavras vão se esvaziando de significado. O discurso perde sua força, e aquilo que teria o poder de inflamar corações e provocar mudanças não passa de sons repetitivos (tipo a professora do Charlie Brow do desenho Snoop). Resumindo estamos ficando cansados de tanta conversa. Esperamos e ansiamos por ações e atitudes que tornem os discursos reais, encarnando ideias e pensamentos. Precisamos de menos conversa e mais coerência!

O tema não é novo, pois o apóstolo Tiago – irmão do Senhor (cf. Mt 13.55) – aborda o assunto em sua carta (Tiago 2.14-26). De maneira simples e direta – na verdade, tão direta que provavelmente feriria nossa sensibilidade moderna! – o apóstolo chama os crentes para que vivam de maneira coerente com seu chamado, praticando aquilo que confessam, do contrário a fé torna-se inútil, “morta como um cadáver”, como a Bíblia “A Mensagem” traduz o versículo 26. Meu objetivo não é fazer uma exegese do texto, apenas gostaria de destacar que: se Tiago faz uma recomendação aparentemente tão óbvia; se em seu zelo pastoral ele precisa chamar a atenção das igrejas para esse assunto; muito provavelmente, isso se deve ao fato de que de alguma forma as atitudes não correspondiam às ações.  Ou seja, a fé praticada não correspondia à fé professada!  Se pensarmos ainda que seus ouvintes eram os chamados “judeus da Dispersão” ou “da Diáspora” (cf. Tg 1.1), isto é, aqueles judeus que haviam se convertido ao cristianismo e precisaram abandonar a Palestina por conta da perseguição religiosa, sendo, portanto, um grupo de crentes que se encontrava vivendo em meio às culturas pagãs, e, exatamente por isso, era alvo da observação atenta e desconfiada dos vizinhos gentios (Cf. 1 Pe 3), então, perceberemos que o que está em jogo aqui é a validade que seria dada à mensagem do Evangelho do Reino proclamada por aquelas igrejas.

Penso que funcionava mais ou menos assim: os cristãos diziam que adoravam um Deus que abriu mão de todo o seu poder e majestade. Um Deus que se esvaziou de sua divindade e tornou-se um ser humano, e, como homem, continuou abrindo mão do poder, não sendo encontrado nos palácios, mas na periferia do Império entre os pobres e excluídos da sociedade. Esse homem possuía uma marca: sua característica principal era um amor intenso que se doava pelos outros. Um amor tão radical que o levou a entregar-se como sacrifício. Um justo em favor dos injustos. Ora, esse era um pensamento completamente estranho para a mentalidade imperialista que idolatrava o poder. Portanto, se um cristão – que dizia crer no Deus que abriu mão do poder por amor ao outro, agisse de acordo com sua crença, abrindo ele próprio mão do poder, por exemplo, em seus relacionamentos pessoais: tratando sua esposa com dignidade e não como propriedade, tal como as sociedades patriarcais antigas funcionavam; tratando os filhos com atenção e carinho, e não simplesmente como mão de obra, tal como as culturas pré-industriais se organizavam; e até mesmo os escravos com respeito e afeto, talvez até o ponto de libertá-los! Com certeza, isso causaria um grande impacto nos seus vizinhos pagãos, gerando uma de duas reações: ou o vizinho sentiria repulsa pelo cristão e zombaria de sua crença, ou sentiria atração e admiraria aquele estilo de vida. 

Como disse Chuck Colson, fundador do Prison Fellowship Ministries: “As pessoas não eram atraídas para o cristianismo por causa de eventos, cruzadas de evangelização ou meios de comunicação em massa – essas coisas não existiam naquela época. A igreja cresceu porque os cristãos viviam o Evangelho e tinham uma comunidade – uma igreja local – na qual as pessoas realmente amavam umas às outras. Durante as grandes pestilências que assolaram Roma, no século II, todos os médicos fugiram, mas os cristãos ficaram e cuidaram dos doentes. Eles incorporaram o que os cristãos são chamados a fazer. Embora muitos cristãos tenham morrido por ter cuidado dos doentes, os pagãos foram atraídos para Cristo porque viram o amor dos cristãos e do próprio cristianismo como uma forma melhor de viver”.1

Em outras palavras, uma igreja que proclamava que o Reino de Cristo é um Reino de justiça e shalom, obrigatoriamente abolia as barreiras de raça, gênero e cultura (cf. Gl 3.28; At 13.1; Rm 16); uma igreja que proclamava que o Reino de Cristo é o Reino da generosidade e abundância, obrigatoriamente repartia entre si os recursos, de tal forma que, “nenhum necessitado havia entre eles” (cf. At 4.34-35; 2Co 8 e 9); uma igreja que proclamava que o Reino de Cristo era um Reino de liberdade, obrigatoriamente lutava com as armas espirituais e presenciava pessoas sendo libertas (cf. Ef 6.10-17; At 19.11-20; Cl 2.6-23; 1 Pe 5.8-9). Palavras e ações geravam forte testemunho que impelia os de fora da comunidade a se posicionarem: atração ou repulsa, conversão ou perseguição. Nunca, indiferença! 

Sendo assim, podemos concluir que, o objetivo de Jesus foi construir uma comunidade que encarnasse as palavras de vida que ele proclamava e foi apenas isso que ele fez! Ele não se preocupou em construir templos, organizar corais ou estabelecer rituais elaborados. E por cerca de 400 anos a igreja manteve-se fiel a esse programa simples e esse foi o período de maior coerência, e consequentemente de maior impacto. Mas, a partir do momento que a igreja abandonou a simplicidade do projeto de Jesus e começou a perder o foco, por conta da união com o Império provocada por Constantino, a partir do momento que a igreja foi se tornando cada vez mais ocupada e preocupada com seus templos, rituais, vestes sacerdotais, discussões teológicas, corais e uma infinidade de parafernália religiosa, a coerência entre as palavras e ações se enfraqueceu! Por outro lado, sempre que a igreja retornou à simplicidade do projeto original, seu impacto social foi e é enorme. Um dos principais exemplos modernos é a China comunista. Segundo o missiólogo australiano Alan Hirsch, em seu livro “Caminhos Esquecidos”, a China antes do regime comunista possuía cerca de 2 milhões de cristãos. Com a tomada do poder por Mao Tsetung, os missionários estrangeiros foram deportados, os pastores locais foram mortos ou presos, templos e propriedades foram confiscados e Bíblias foram queimadas. Quando por volta do início dos anos 80, a chamada “cortina de bambu” foi levantada, e os missionários puderam voltar ao país, pensando que teriam de começar o trabalho do zero, pois tinham por certo que a igreja estava morta, para a glória de Deus, foram surpreendidos com o fato de que os 2 milhões de cristãos tornaram-se cerca de 60 milhões (talvez 80 milhões)! Eles viveram um crescimento exponencial sem poder contar com os templos, cultos públicos, líderes treinados, grupos de louvor e muitas das coisas que achamos serem essenciais e insubstituíveis. Como isso aconteceu? Nas palavras de Hirsch: “Fizemos tantas outras coisas, mas essa é a mais básica de todas. Discipulado. Tornar-se como Jesus, nosso Senhor e Fundador, está no epicentro da tarefa da igreja. Isso significa que a cristologia deve definir tudo o que fazemos e dizemos. Também significa que, para recuperar o ethos do cristianismo autêntico, precisamos reorientar nossa atenção de volta à raiz de tudo, para recalibrar a nós mesmos e as nossas organizações em torno da pessoa e do trabalho de Jesus, o Senhor. Significará levar os evangelhos a sério como os textos primários que nos definem.” 

Por essa razão, penso que o isolamento e a impossibilidade de estarmos nos templos, talvez seja uma das maiores bênçãos que poderíamos receber. Mais uma vez temos a chance de voltarmos à simplicidade do evangelho. Ao discipulado que não é acorrentado pelo isolamento social, mas que se beneficia da tecnologia para gerar proximidade ainda que a distância. Essa é a oportunidade para que esta multidão de “desigrejados”, frustrados e machucados com a religiosidade plástica, meramente estética e incoerente, seja atraída pelo Espírito da Vida, que direciona e energiza o povo de Deus, à medida que esse povo encarna em atitudes simples de amor a esperança futura do Novo Céu e da Nova Terra, fazendo com que o futuro esperado e aguardado seja experimentado agora, no seio da comunidade que se comprometeu a viver a vida do Cristo crucificado e ressurreto, tornando-se ela própria disseminadora de “pequenos Cristos”. Como disse Philip Yancey, em Eclipse da Graça: “cristãos comuns deve seguir um estilo de vida que destoe da cultura ao seu redor, caso contrário nossa mensagem nunca será ouvida. Nisso reside o mais solene desafio enfrentado pelos cristãos que desejam comunicar sua fé: se não tivermos um estilo de vida que, em vez de afastar, atrai outros para a fé, nenhuma de nossas palavras terá importância”. Que Deus nos faça íntegros, para que nossas palavras sejam coerentes com nossas ações.

1- KINNAMAN, David; Descrentes: o que a nova geração realmente pensa sobre o cristianismo e por que isso é importante, p 97;

Vento do Espírito (Pentecostes 2020)

Rev. Mário Sérgio de Góis

“Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar.
De repente veio do céu um som,
como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados”. Atos 2:1,2

Neste dia 31 de maio a Igreja cristã celebra o Pentecostes! Importante festa para os judeus foi justamente durante sua celebração que o Espírito Santo desceu sobre os discípulos de Jesus reunidos numa casa em Jerusalém. Deste modo, de um lado, cumpriu-se a profecia bíblica do Antigo Testamento (Joel 2) que predizia a descida do Espírito Santo e, por outro, a promessa de Jesus (João 14 e 16) de que enviaria o Consolador.

A bíblia apresenta diferentes figuras relacionadas ao Espírito Santo. Em Atos 2:2 temos uma delas que é o vento – “como de um vento muito forte”. 

Penso ser apropriado refletir neste domingo de Pentecostes sobre o vento e suas influências. Vivemos em plena pandemia do novo coronavírus, o qual soprou sobre a face da terra como um forte vento e ainda continua a soprar.

O vento forte quando sopra tira do lugar quase todas as coisas. A paisagem se altera completamente. Coloca o mundo de ponta cabeça. Perde-se o controle de tudo e põe por terra estruturas mandando para o ar um montão de coisas. É justamente isso que a pandemia do novo coronavírus tem feito. Colocou à prova todos os sistemas que aparentavam segurança. Percebemos a incapacidade da ciência e o sistema de saúde de darem conta da demanda; a economia das pessoas, famílias e nações ruindo ao ver suas reservas financeiras sendo consumidas rapidamente; a incapacidade de certos líderes políticos de articular e organizar uma frente unida contra o vírus e suas consequências; a enorme dificuldade de grande parte da população de seguir orientações e resguardarem a si mesmas e aos outros. O mundo interior das pessoas está se desabando fazendo surgir em meios aos escombros emocionais os conhecidos ‘transtornos e síndromes’ com suas garras. O que fica é uma equação que não fecha: muitas perguntas numa mão e poucas respostas na outra!

O vento forte quando sopra trás revelações. Ele revela que aquilo que aparentava fortaleza não era tanto, e assim deita por terra casas simples e mansões requintadas. Em meio aos destroços e escombros muita coisa é revelada da intimidade e privacidade das pessoas. Do mesmo modo o vento forte desta pandemia tem revelado o pior e o melhor do ser humano. O aumento da violência, os interesses mesquinhos e egoístas, a excessiva preocupação com o vil metal, os oportunistas agindo à margem da lei e da ética para obter lucros, o fosso da desigualdade econômica e social, o vazio das almas sem esperança por não cultivar uma espiritualidade e fé saudáveis, etc. Por outro lado, vemos um despertamento solidário revelando a bondade de pessoas em pequenos ou grandes atos de solidariedade, os profissionais da saúde numa dedicação sacerdotal, profissionais de áreas essenciais se expondo dia a dia, pesquisadores cientistas concentrados em buscar uma vacina contra o vírus e, não menos impactante é a descoberta que as pessoas fizeram de que conseguem viver com pouco e que a simplicidade satisfaz.

Quando o Espírito Santo soprou sobre os discípulos em Pentecostes, tudo mudou. É impressionante a transformação nas vidas dos apóstolos, antes temerosos num isolamento social (João 20:19-23) e agora com coragem anunciando as grandezas de Deus (Atos 2:14-36). O livro de Atos dos Apóstolos é simplesmente a narrativa, na prática, dessa transformação.

E assim, como quando após um tornado que passou os sobreviventes vasculham os entulhos de suas casas à procura de algo que resgate suas identidades e memórias as quais se tornam verdadeiros tesouros existenciais para elas, a humanidade hoje está em cima dos escombros buscando sentido para a vida. É tempo de reorganização e, nesta hora, escolhas são necessárias serem feitas para a reconstrução de um modo de viver e de interagir com o outro.

Mas como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, reflitamos neste dia de Pentecostes no fato de que assim como o novo coronavírus é este forte vento soprando, também, devemos crer que o Espírito de Deus está soprando sobre o Seu povo hoje, transformando-o e encorajando-o para o ‘novo normal’ na pós pandemia (Ezequiel 37:9; Salmo 104:30).

E assim oraremos suplicando que o vento que vem dos quatro cantos sopre sobre nós para sermos uma nova igreja para uma nova realidade.

E que, como os discípulos, o Espírito nos encontre reunidos num só lugar! 

5 Resultados Incríveis do JEJUM DE MÃOS ESTENDIDAS

Isaías 58.1-12

José Roberto Cristofani

Domingo de Ramos 2020

Introdução

Luz
Cura
Direção
Proteção
Resposta

Jejum é um exercício espiritual de extrema importância em tempos de calamidade. Já estamos em um movi- mento de oração. Precisamos, agora, aliar o jejum às nossas orações, pois a gravidade do momento reclama de nós “Promulgar um santo jejum” (Joel 1.14).

A pandemia global do novo coronavírus alcançou nosso país e está causando muito sofrimento e aflição no presente e causará muitos outros males depois que a crise passar. Tanto no presente como neste futuro bem próximo, temos grandes desafios como povo de Deus e devemos continuar nos fortalecendo mutuamente para enfrentarmos a pandemia com o auxílio e proteção do Senhor.

Além do distanciamento social, da impossibilidade da comunhão física da comunidade de fé, do aumento de infectados, da multiplicação dos doentes, da assombrosa morte, que tem ceifado a vida de muitos, e ainda o fará, muito além disso, a situação econômica se agravará, os níveis de desemprego aumentará dramaticamente e as dificuldades de subsistência se avolumará.

Parafraseando o Apóstolo Paulo devemos nos perguntar: O que faremos pois, diante dessas coisas? Assistiremos impassíveis ao sofrimento e aflição do povo? Ou tomaremos o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus e enfrenta- remos com determinação a presente situ- ação?

Tempos difíceis reclamam, sempre, o posicionamento firme e determinado das filhas e dos filhos do Altíssimo. Por isso, a promulgação de um “Jejum de Mãos Estendidas” se faz urgente e necessário.

O que é, afinal, um Jejum de Mãos Estendidas?

Com base em Isaías 58.1-12, clássico texto sobre o verdadeiro significado do jejum e sua prática, é possível propor o seguinte quadro de reflexão:

1. O jejum deve ser proclamado por um enviado do Senhor (vv.1-2)

2. O jejum deve ser compreendido no seu significado básico (vv. 3 e 5)

3. O jejum deve ser entendido em seu significado estendido (vv. 6-7)

4. O jejum deve ser desejado pelos seus resultados (vv. 8 a 12)

1. O jejum deve ser proclamado por um enviado do Senhor (vv.1-2)

“Grite alto, com todas as suas forças! Grite alto, como o som da trombeta! Fale ao meu povo, Israel, sobre sua rebeldia e seus pecados! Apesar disso, agem como se fossem piedosos! Vêm ao templo todos os dias e parecem ter prazer em aprender a meu respeito. Agem como nação justa que jamais abandonaria as leis de seu Deus. Pedem que eu atue em favor deles e fingem querer estar perto de mim. Isaías 58.1,2

Enviado pelo Senhor, Deus de Israel, o profeta Isaías, como líder profético da nação, é instado a clamar ao povo nos seguintes termos: “Grite alto, com todas as suas forças! Grite alto, como o som da trombeta! Fale ao meu povo, Israel, sobre sua rebeldia e seus pecados!” (v.1). O mensageiro do Senhor é enviado para dentro de uma situação de sofrimento por causa pecado, neste caso, que está causando uma separação pessoal no tocante a Deus e um distanciamento social em relação ao próximo.

Assim, a liderança profética de Isaías é uma voz contundente a clamar ao povo para que corrija uma prática bem estabelecida da espiritualidade do povo de Deus: o jejum. Todo o trecho de Isaías 58.1-12 é uma d`idaquê, um ensino sobre o verdadeiro e profundo significado da prática do jejum em tempos de calamidade nacional.

Nas palavras de Calvino,

Quando aparecem os julgamentos da ira do Senhor (como pestilência, guerra e fome) – é uma ordenança sagrada e salutar para todas as épocas, que os pastores instem o povo ao jejum público e às orações extraordinárias. (Piper, A hunger for God: desiring God through fasting and prayer, p.187, grifos meus)

Podemos afirmar, claramente, o papel de anunciador profético dos Pastores, que devem, em tempos de pandemia e sofrimento, conclamar o povo de Deus, com grande vigor e autoridade, a um período de jejum. Para usar as palavras bíblicas, eles devem “Promulgar um santo jejum” (Joel 1.14).

Nosso Senhor vê o jejum com naturalidade e também incentiva seus seguidores a jejuar, mas os adverte:

Quando jejuarem, não façam como os hipócritas, que se esforçam para parecer tristes e desarrumados a fim de que as pessoas percebam que estão jejuando. Eu lhes digo a verdade: eles não receberão outra recompensa além dessa. Mas, quando jejuarem, penteiem o cabelo e lavem o rosto. Desse modo, ninguém notará que estão jejuando, exceto seu Pai, que sabe o que vocês fazem em segredo. E seu Pai, que observa em segredo, os recompensará. (Mateus 6.16-18)

O Mestre, quando questionado sobre o porque não proclamava um jejum entre seus discípulos, ele respon- de:

Por acaso os convidados de um casamento jejuam enquan- to festejam com o noivo? Um dia, porém, o noivo lhes será tirado, e então jejuarão. (Lucas 5.34-35)

2. O jejum deve ser compreendido no seu significado básico (vv. 3 e 5)

Dizem: ‘Jejuamos diante de ti! Por que não prestas atenção? Nós nos humilhamos com severidade, e tu nem reparas!’. “Vou lhes dizer por quê”, eu respondo. “É porque jejuam para satisfazer a si mesmos. Enquanto isso, oprimem seus empregados. De que adianta jejuar, se continuam a brigar e discutir? Com esse tipo de jejum, não ouvirei suas orações. Vocês se humilham ao cumprir os rituais: curvam a cabeça, como junco ao vento, vestem-se de pano de saco e cobrem-se de cinzas. É isso que chamam de jejum? Acreditam mesmo que agradará o Senhor? Isaías 58.3-5

Isaías faz o povo ver, primeiramente, o significado básico do jejum, que é a mortificação do corpo e a dependência de Deus nesse período de fraqueza corporal causada pela abstinência de alimento. E esse significado os seus ouvintes parecem saber muito bem, pois: “Dizem: ‘Jejuamos diante de ti! Por que não prestas atenção? Nós nos humilhamos [afligimos] com severidade, e tu nem reparas!’” (v.3). É uma queixa do povo contra Deus. E eles fazem o jejum como manda o figurino: “Vocês se humilham ao cumprir os rituais: curvam a cabeça, como junco ao vento, vestem-se de pano de saco e cobrem-se de cinzas.” (v.5). Mas isso é só casca e verniz para o vazio dos corações.

Contudo, há uma segunda camada de significado do je- jum que não é capturado pelo povo de Deus. O profeta aprofunda a questão ao responder ao povo, em nome do Senhor, com as seguintes palavras:

Vou lhes dizer por quê: – É porque jejuam para satisfazer a si mesmos.” (v.3). O mensageiro do Senhor identifica, de forma precisa, o problema que impede Deus de aceitar o jejum dos ouvintes, qual seja, eles jejuam em causa própria.

E o que é jejuar em causa própria? O final do verso 3 e os versos 4 e 5 descrevem como os jejuadores, através do jejum, acabam por agravar o sofrimento de outras pessoas que estão sob seu mando (oprimem seus empregados) e continuam a brigar e discutir. Isso, definitivamente, não é um jejum agradável ao Senhor.

Aqui é importante mencionar que Jesus valoriza algumas práticas da espiritualidade judaica, como por exemplo: a esmola; a oração; o jejum (Mateus 6); e o dízimo (Mateus 23). Porém, ele diz que jejuar, orar, dar esmola e entregar o dízimo, como um ato mecânico e ritualístico, não é o bastante. É preciso, na opinião do Mestre, acrescentar aos atos de espiritualidade a justiça, a misericórdia e a fé, que são, afinal, as coisas mais importantes da Torah, a lei de Deus.

Assim, Jesus afirma:

Têm o cuidado de dar o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciam os aspectos mais importantes da lei: justiça, misericórdia e fé. Sim, vocês deviam fazer essas coisas, mas sem descuidar das mais importantes. (Mateus 23.23)

3. O jejum deve ser entendido em seu significado estendido (vv. 6-7)

“Este é o tipo de jejum que desejo: Soltem os que foram presos injustamente, aliviem as cargas de seus empregados. Libertem os oprimidos, removam as correntes que prendem as pessoas. Repartam seu alimento com os famintos, ofereçam abrigo aos que não têm casa. Deem roupas aos que precisam, não se escondam dos que carecem de ajuda. Isaías 58:6,7

Isaías, o líder profético, leva adiante sua palavra e explica o significado mais profundo do jejum que Deus exige: Este é o tipo de jejum que desejo: Soltem os que foram o significado mais profundo do jejum que Deus exige: presos injustamente, aliviem as cargas de seus empregados.

Libertem os oprimidos, removam as correntes que prendem as pessoas. Repartam seu alimento com os famintos, ofereçam abrigo aos que não têm casa. Deem roupas aos que precisam, não se escondam dos que carecem de ajuda. (vv. 6-7)

Agora a coisa toda está clara. O jejum requerido pelo Senhor é o jejum que ao mesmo tempo mortifica a alma (vida), demonstrando, assim, dependência de Deus, mas vai muito além do âmbito pessoal e se estende ao corpo social em sofrimento e aflição. O jejum mortifica o corpo, mas não mata as pessoas, deixando-as à própria sorte. O jejum se faz com a alma e também com as mãos estendidas.

A relevância desses procedimentos para com as pessoas que estão enfrentando sofrimento não pode ser atenuada. Repare as palavras de Jesus em Mateus 25:

Então os justos responderão: “Senhor, quando foi que o vimos faminto e lhe demos de comer? Ou sedento e lhe demos de beber? Ou como estrangeiro e o convidamos para a nossa casa? Ou nu e o vestimos? Quando foi que o vimos doente ou na prisão e o visitamos?”. E o Rei dirá: “Eu lhes digo a verdade: quando fizeram isso ao menor destes meus irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mateus 25.37-40)

Que fique claro para nós que o Galileu é um herdeiro espiritual dos profetas do Primeiro Testamento e, como tal, segue-lhe os passos em direção à vontade de Deus.

4. O jejum deve ser desejado pelos seus resultados (vv. 8 a 12)

“Então sua luz virá como o amanhecer, e suas feridas sararão num instante. Sua justiça os conduzirá adiante, e a glória do Senhor os protegerá na retaguarda. Então vocês clamarão, e o Senhor responderá. ‘Aqui estou’, ele dirá. “Removam o jugo pesado de opressão, parem de fazer acusações e espalhar boatos maldosos. Deem alimento aos famintos e ajudem os aflitos. Então sua luz brilhará na escuridão, e a escuridão ao redor se tornará clara como o meio-dia. O Senhor os guiará continuamente, lhes dará água quando tiverem sede e restaurará suas forças. Vocês serão como um jardim bem regado, como a fonte que não para de jorrar. Reconstruirão as ruínas desertas de suas cidades e serão conhecidos como reparadores de muros e restauradores de ruas e casas. Isaías 58:8-12

O profeta Isaías, porta-voz de Deus e dos que estão sofrendo por causa das condições sociais da época, indica, finalmente, cinco resultados bem práticos do jejum agradável a Deus: Eles terão luz; receberão a cura; terão direção; gozarão de proteção; e receberão respostas imediatas do Senhor.

O resultado imediato do jejum segundo o coração de Deus será, portanto, luz, cura, direção e proteção, ex- pressas nas seguintes palavras:

Então sua luz virá como o amanhecer, e suas feridas sararão num instante. Sua justiça os conduzirá adiante, e a glória do Senhor os protegerá na retaguarda.” (v.8).

Não menos importante é outro resultado desse jejum divinamente orientado: resposta imediata do Senhor às orações do seu povo. “Então vocês clamarão, e o Senhor responderá. ‘Aqui estou’, ele dirá.” (v. 9). Eles se queixaram de que Deus não estava levando em consideração o jejum deles. Corrigido o rumo e a compreensão acerca do jejum, o Senhor responde prontamente.

Esses cinco resultados incríveis (luz, cura, direção, proteção, resposta) ressoam nos ensinamentos e nas ações de Jesus.

Luz – Ele se declara como a luz do mundo (João 8.12) e a luz brilha em meio as trevas. Consequentemente, diz ele, vós somos a luz do mundo (Mateus 5.14) e na sequência, assim brilhe a vossa luz diante das pessoas (Mateus 5.16).

Cura – A cura vinha pelas suas mãos, pois ele sarava os que necessitavam de cura. (Lucas 9.11). E enviou os seus discípulos para fazerem o mesmo.

Direção – Tomé diz a Jesus “Como podemos conhecer o caminho?” (João 14.5). Mestre afirma: Eu sou o caminho (João 14.16). Assim, ele pode dizer aos discípulos: Vocês conhecem o caminho para onde vou. (João 14.4), portanto, sigam-me.

Proteção – A oração de Jesus para Deus, o Pai, é agora protege-os com o poder do teu nome para que eles estejam unidos, assim como nós estamos. (João 17.11). Essa proteção é comparável àquela na qual a galinha protege os pintinhos sob as asas. (Lucas 13.34).

Resposta – A certeza de que os ouvidos do Senhor estão atentos à oração para responder com presteza aparece em Mateus 7.7,8: Peçam, e receberão. Procurem, e encontrarão. Batam, e a porta lhes será aberta. Pois todos que pedem, recebem. Todos que procuram, encontram. E, para todos que batem, a porta é aberta. Pois, se crerem, receberão qualquer coisa que pedirem em oração. (Mateus 21.22).

Conclusão

O texto de Isaías termina com um resumo da Torah (instrução) profética sobre o jejum nos seguintes termos:

Removam o jugo pesado de opressão, parem de fazer acusações e espalhar boatos maldosos. Deem alimento aos famintos e ajudem os aflitos. Então sua luz brilhará na escuridão, e a escuridão ao redor se tornará clara como o meio-dia. Senhor os guiará continuamente, lhes dará água quando tiverem sede e restaurará suas forças. Vocês serão como um jardim bem regado, como a fonte que não para de jorrar. Reconstruirão as ruínas desertas de suas cidades e serão conhecidos como reparadores de muros e restauradores de ruas e casas. (vv. 9-12)

Maravilhosa mensagem da voz profética de Deus por intermédio do seu servo o profeta Isaías.

A correção da compreensão do jejum pelo profeta é um verdadeiro bálsamo para os nossos corações em tempos de pandemia. Para todos nós, que somos assolados por dúvidas, fustigados pelas “fakes news”, distanciados do convívio social, apartados da comunhão física do povo de Deus, rodeados por pessoas doentes, cercados pelos necessitados, para nós as palavras de Isaías é um alento do Senhor.

Os cinco resultados incríveis do jejum de mãos estendidas são: luz para a sociedade; cura para as enfermidades; direção para o caminho, proteção na jornada e resposta imediata ao clamor.

Jejum de mãos estendidas significa, portanto, mortificar o próprio corpo e estender a mão ao necessitado.

P.S.

Além da mensagem em si, outro fator importantíssimo a ser destacado no texto de Isaías 58 é a maneira com que o profeta fala. Primeiro, ele tem absoluta convicção de que está proclamando a palavra porque Deus o instou a fazê-lo. Segundo, é justamente o nome do Soberano Senhor que lhe dá força para enfrentar a situ- ação; ousadia para confrontar o povo; inteligência para compreender a situação; sabedoria para ensinar com correção; destemor para exortar; fé para acreditar na mudança; paciência para esperar a resposta do Altíssimo; e esperança para confiar no Todo Poderoso.

Frente aos desafios mais urgentes e graves, Isaías, atento ao chamado do Senhor e consciente de sua vocação de porta-voz de Deus e do povo, toma a dianteira e conclama o povo a um jejum agradável a Deus.


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